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Autor(a):

Gabriela Kapim

Nutricionista, trabalha com crianças há mais de 13 anos com o objetivo que elas cresçam com saúde e consciência alimentar. Seu lema para uma vida saudável é pensar na alimentação sem esquecer as atividades físicas. Ministra palestras e coordena workshops relacionados ao universo da alimentação infantil. Além de atender em seu consultório, compartilha dicas e receitas em seu site e redes sociais. No canal GNT, apresenta os programas Socorro! Meu filho Come Mal e Cozinha Colorida da Kapim.

/Comida e Saúde

Minha história e o câncer

Minha história e o câncer se esbarram há anos. Não, eu não tenho nem tive câncer, mas esta palavra que muitos não gostam de ouvir, outros não conseguem nem falar, sempre esteve nos meus ouvidos e nas rodas de conversa da minha casa, desde que eu era criança. Não, eu também não tinha nenhum parente com essa enfermidade, não nessa época.

A intimidade com o câncer veio do meu pai, ele era cirurgião pediátrico e se especializou em cirurgia oncológica, ou seja, ele operava crianças com câncer, e durante muitos anos foi chefe da Cirurgia Pediátrica do Inca (Instituto Nacional do Câncer). Sempre  gostei de ouvir as histórias dele sobre as crianças e suas cirurgias. E não se espantem, ficava horas com ele escolhendo fotos de tumores,  para ele usar nos trabalhos que iria apresentar nos congressos. Final de semana antes da praia ele precisava passar visita, e eu adorava ir com ele, conhecer as crianças pessoalmente, algumas vezes fomos parados na rua por famílias inteiras que vinhamagradecê-lo por ter salvo a vida do filho, filha, sobrinho...

Naquela época eu só achava legal, não entendia a dimensão nem a gravidade, nem da importância do trabalho dele, aquilo tudo simplesmente me encantava.

Quando fiquei mais velha e pensei em fazer Nutrição, tivemos uma longa conversa e ele questionava o qual o motivo de não escolher a medicina. Ele tinha um pensamento careta de que qualquer pessoa que quisesse trabalhar na área da saúde que não a medicina, seria um médico frustrado... Ah esses pais, com mania de acharem que sabem tudo.  Até que no desenrolo da nossa conversa eu disse: Pai eu quero trabalhar com saúde e não com doença! Essa é a nossa diferença.

Não satisfeito com a minha conclusão, me propôs passar um dia inteiro com ele no hospital, com ele exatamente não, mas como o Chefe da Nutrição do Inca – eu adoraria me lembrar do nome dele, mas infelizmente não lembro, sou péssima para nomes, me perdoem.

As 7h da manhã estava pronta na porta do hospital esperando por meu pai, claro que chegou atrasado, mas chegou. E lá fui eu... ansiosa e aflita, eu sabia que meu pai estava me testando, se eu sobrevivesse aquele dia e se minha vontade de fazer nutrição resistisse depois de tantas histórias e desafios, ele teria que se conformar.

Circulei aquele hospital todinho, passei por todos os andares: pediatria, triagem, cozinha... não teve um lugarzinho daquele prédio que a nutrição alcançasse que eu não conheci. Foi um dia intenso e tenso. O nutricionista era tão apaixonado pela nutrição e seu poder na recuperação daqueles pacientes, que era impossível eu não me encantar mais ainda.

Quando finalmente reencontrei meu pai, vi nos olhos dele a ansiedade pela minha decisão, e a dualidade nos seus sentimentos. Até hoje não sei ao certo se ele ficou mais orgulhosoou angustiado. Orgulhoso porque afinal de contas, de certa forma, eu estava escolhendo falar a mesma língua que ele. Angustiado, por que ele tinha certeza que a menininha dele não  estava escolhendo um caminho fácil.   

 E lá fui eu fazer vestibular pra Nutrição, passei pra Santa Ursúla, uma Universidade particular. Mais uma vez me olhou firme nos olhos e, mais um vez eu não pude decifrar o que ele sentia. Decepção por não ter passado para uma faculdade pública ou orgulho por ter passado mesmo que pra uma particular. Sei que ele virou pra mim e disse: são quatro anos de faculdade em horário integral. De hoje em diante você não tem mais mesada e eu só vou pagar por esses quatro anos, então se vira.

Ele tinha motivos para me dar essa dura, eu não era boa aluna, repeti de ano, mudei 300 vezes de escola, e essa também não seria a minha 1ª faculdade. Eu já tinha começado jornalismo, onde no 1º semestres eu tinha 7 matérias e repeti 5. Então, como falei, ele tinha motivos pra desconfiar da sua filhinha querida.

 Eu amei a faculdade, era uma das melhores alunas da turma e me formei seis meses antes, sem repetir nenhuma matéria. Na minha formatura foi fácil decifrar: o coroa estava transbordando de orgulho, apesar de ainda ter uma preocupação no olhar de: e agora...

 Essa parte do “e agora”vocês já sabem, vocês sabem o que aconteceu com essa Nutricionista que vos escreve... mas ele não. Ele não sabe o que ando aprontando. Ele não sabe, que eu do meu jeitinho também ajudo a salvar vidas, ele não sabe que eu abusadamente fui parar na televisão e hoje melhoro a alimentação de muitas crianças Brasil a fora, com isso elas vivem melhor, com isso elas são mais felizes, com isso elas tem menos chances de desenvolver câncer. Ele não sabe de nada disso...

Em fevereiro de 2009 descobrimos um tumor no cérebro do meu pai. Depois de 2 cirurgias, muita quimioterapia e de passar por todo sofrimento conhecido de perto por ele dentro do seu jaleco branco, agora era a vez dele de vestir o avental e vivenciar o câncer como paciente. No dia 15/12/2010 ele se foi.

Talvez ele saiba de tudo!!!